Na Hora da Virada - Angie Thomas

13 de outubro de 2021

Título:
 Na Hora da Virada 
Autor: Angue Thomas 
Páginas: 378
Ano: 2019
Editora: Galera Record
Gênero: Young Adult
Adicione: Skoob
Onde Comprar: Amazon
Nota:   
Sinopse:  Bri é uma jovem de dezesseis anos que sonha se tornar uma das maiores rappers de todos os tempos. Ou, pelo menos, ganhar sua primeira batalha. Filha de uma lenda do hip-hop underground que teve o sucesso interrompido pela morte prematura, Bri carrega o peso dessa herança. Mas é difícil ter a segurança de estrear quando se é hostilizada na escola e, desde que sua mãe perdeu o emprego, os armários e a geladeira estão vazios. Então, Bri transforma toda sua ira em uma primeira canção que viraliza... pelos piores motivos! No centro de uma controvérsia, a menina é reportada pela mídia como uma grande ameaça à sociedade. Mas com uma ordem de despejo ameaçando sua família, ela não tem outra escolha a não ser assumir os rótulos que a opinião pública lhe impôs. Na Hora da Virada dá aos leitores de Angie Thomas outra protagonista pela qual torcer. É uma história sobre lutar por seus sonhos e também sobre a dificuldade de ser quem você é, não quem as pessoas querem que você seja.


Resenha:

A importância de não se calar. 

Hey amadxs! Angie Thomas me conquistou completamente com O Ódio Que Você Semeia, que até foi uma das minhas melhores leituras de 2018. Logo eu estava com altas expectativas com essa obra, que se passa após os acontecimentos do livro de estreia da autora.

Na Hora da Virada nos conta a história de Brianna, uma adolescente de 16 anos que adora hip-hop e sonha em ganhar uma batalha de rap improvisado com seus versos inteligentes e que expressam a sua realidade no bairro de Garden Heights, conhecido por ser o domínio de gangues.

Acontece que após um evento violento em sua escola, a nossa protagonista acaba virando o centro das atenções ao utilizar sua música para denunciar o ocorrido. Os versos de Bri se tornam virais, e apesar das impressões erradas que passou com a canção (dando a entender que faz parte do mundo do crime de Garden Heights), a jovem vê nisso uma oportunidade de tentar ajudar a família.

Antes de tudo é importante dizer, já de uma vez, que a autora acertou de novo. Por meio de uma protagonista bem humorada, a obra abre para discussão vários temas relevantes, como racismo, preconceito, desemprego, educação e claro, violência policial. 

"- Então, dona repórter - eu digo - , e qualquer outra pessoa que queira chamar "Na Hora da Virada" de isso ou aquilo ou o que for. Podem dizer o que quiserem. Porra, derrubem a música se quiserem. Mas vocês nunca vão me silenciar. Eu tenho coisas demais para falar."

Em um momento no qual o movimento Black Lives Matter continua em alta, o livro soa mais atual do nunca. Assim como ocorre com milhares de negros todos os dias, Brianna é vítima de uma imobilização gratuita sem ter feito nada e ainda é apontada como a grande vilã. E a jovem encontra na arte uma forma de expressar toda a sua indignação, porém a interpretação do público cria um engajamento de proporções enormes.

Brianna é uma personagem pela qual facilmente criamos empatia. nerd e totalmente conhecedora do universo hip-hop (temos referências a Cardi B e Nicki Minaj, ahhhhh eu amo), a jovem é uma adolescente como qualquer outra, e é compreensível que na hora de tomar certas decisões a protagonista tenha agido sem pensar direito. Confesso que o comportamento “esquentado” que Bri apresenta me irritou algumas vezes, mas nada que prejudique a experiência.

“Agressiva” é usada para me descrever com muita frequência. Deveria significar ameaçadora, mas nunca ameacei ninguém. Só digo coisas das quais os professores não gostam. Todos, exceto a sra. Murray, que por acaso é minha única professora negra. Houve um momento na aula de história durante o Mês da História Negra. Eu perguntei ao professor Kincaid por que nunca falamos sobre as pessoas negras antes da escravidão. As bochechas pálidas dele ficaram vermelhas."


Em relação aos personagens secundários, quero abraçar cada um deles, em especial Jay, a mãe de Brianna. Gostei MUITO desse arco, principalmente porque ele nos mostra como é possível recomeçar. Jay era viciada em drogas e pelo amor aos filhos conseguiu vencer sua dependência. A mãe faz de tudo para dar de melhor para seus filhos (Bri tem um irmão, Trey) e quando perde seu emprego o desespero da personagem é quase que palpável.

Malik e Sunny, melhores amigos de Bri, também são personagens muito bem construídos, sem contar que as referências de cultura pop entre os três me deixou com um quentinho no coração. ADOREI. Além disso, de forma muito natural, Thomas também insere um pouco de romance na história, embora o foco mesmo seja direcionado para as repercussões da música de Bri. 

"- Mas, depois de pensar em como todo mundo reagiu na escola, percebi que você estava certa - diz ele - Você já falou por nós Brisa. Não é sua culpa as pessoas não entenderem. Então - ele dá de ombros - porque você não usa a música pra causar ainda mais?" 

Devo ressaltar, contudo, que a história possui algumas inconsistências difíceis de ignorar. Por exemplo, a família de Bri está passando por dificuldades financeiras, porém eles têm Netflix e a protagonista ainda demostra sua insatisfação com o que há para comer. Então gente, me respondam, quem tem dinheiro pra pagar Netflix tem pra comprar comida, não? Além disso, quando não se tem muita opção, a última coisa que se faz é reclamar do que está entrando. Talvez eu esteja sendo chato, mas pra mim essa parte não pareceu nem um pouco crível. 

Ressalvas à parte, o livro também possui seus momentos tristes e aflitivos. Infelizmente sabemos que o mundo do crime está aí, e quando se vive nesse meio é difícil ignorar tal realidade. Porém o que mais me chamou atenção foi a construção que a autora fez dos personagens envolvidos com esse arco. Apesar do “trabalho” dessas pessoas, vemos que todos possuem uma vida e de certa maneira as gangues cuidam do seu povo. 

"Mas, no Garden, nós fazemos nossos próprios heróis. As crianças do conjunto habitacional amam a tia Pooh porque ela lhes dá dinheiro. Não querem saber como ela consegue. Meu pai falava de coisas ruins, sim, mas são coisas que acontecem aqui. Isso o tornou herói.
Talvez eu também possa ser uma."

Outra coisa que eu achei muito interessante é a tradução feita por Regiane Winarski. De alguma forma, a tradutora conseguiu manter todas as rimas e isso mantém o impacto que é trazido pela letra da música. Um excelente trabalho que merece ser elogiado, afinal tudo gira em torno da canção de do que ela representa em relação a Bri e ao sistema de privilégios que continua protegendo pessoas brancas. 

Resumindo, trata-se de uma trama extremamente tocante que vai nos fazer refletir mais uma vez sobre racismo, preconceito e violência. Até quando a cor de nossa pele vai ditar como devemos ser tratados? É com obras assim que se cria correntes de pensamentos e tendências, pois o que aconteceu com George Floyd, João Alberto e outras incontáveis vítimas é algo doloroso, injustificável, desumano. Algo que nunca deve voltar a acontecer. 

Angie, pode escrever qualquer coisa aí que eu panfleto. 

Vejo vocês na próxima resenha! 

7 comentários

  1. Muita responsabilidade para uma jovem ainda a procura de seu espaço no mundo: A pressão com relação ao sucesso do pai, ter que ajudar em casa, ser mal interpretada com sua música...
    Mas isso tudo com certeza a fortalecerá.
    Essa autora é muito bem falada mesmo.

    Danielle Medeiros de Souza
    danibsb030501@yahoo.com.br

    ResponderExcluir
  2. Fiquei lendo a resenha e olhando meu livro na estante. Foi meu primeiro contato com o trabalho da autora e confesso que no início do livro, tive um misto de sentimentos em relação a Bri. Ao mesmo tempo aplaudindo a vontade dela, o ir atrás dos sonhos, outras vezes, querendo sentar e falar: para Bri, para. rs
    Mas acredito que talvez seja essa a intenção, entender o quanto a vida dessa menina não é fácil. Que a luta de toda sua família é a luta de muitas famílias. Apaixonei-me na tia rs(p..louca)
    Super recomendo sim e quero muito ler mais trabalhos da autora.
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na flor

    ResponderExcluir
  3. Angie, mais uma vez, nos tirando da nossa zona de conforto e trazendo uma obra atual, que poderia muito bem acontecer.

    ResponderExcluir
  4. Alison!
    Infelizmente ainda temos de conviver com o preconceito ferrenho em todas as suas formas.
    Suas observações são bem feitas e plausíveis.
    Imagino a forma irritada da protagonista, principalmente ela sabe tudo o que passa, temos de dar um desconto para a personalidade dela.
    cheirinhos
    Rudy

    ResponderExcluir
  5. Olá Alison
    É uma autora que ainda não tive a oportunidade de ler
    Mas por tudo o que já li dos livros dela , de como ela traz essa realidade do racismo violência policial acho que é uma leitura que vou gostar muito .
    É um assunto pelo qual devemos sempre falar
    Senão cai no esquecimento infelizmente.
    Gostei muito da resenha.

    ResponderExcluir
  6. Eu gosto desse gênero porque sempre traz uma reflexão em um momento da vida que você pode ser tudo e surgem tantas dúvidas. E quando já passamos dele, ficam as lembranças, o que você vivenciou. Sempre abro um espaço pra essas leituras :)

    ResponderExcluir
  7. Olá! Acho que essa é uma daquelas leituras que de tão importante e necessária, deveria ser lido por todos. Apesar das ressalvas, acho que fica um grande aprendizado ao final da história, ainda mais com tantos casos parecidos ao nosso redor.

    ResponderExcluir