A Casa dos Espíritos - Isabel Allende

16 de setembro de 2020

Título: A Casa dos Espíritos
Autor: Isabel Allende
Páginas: 446
Ano: 1982
Editora: Bertrand Brasil
Gênero: Realismo Mágico
Adicione: Skoob
Onde Comprar: Amazon
Nota:  
Sinopse: O maior sucesso de Isabel Allende, agora com novo projeto gráfico. A casa dos espíritos é tanto uma emblemática saga familiar quanto um relato acerca de um período turbulento na história de um país latino-americano indefinido. Isabel Allende constrói um mundo conduzido pelos espíritos e o enche de habitantes expressivos e muito humanos, incluindo Esteban, o patriarca, um homem volátil e orgulhoso, cujo desejo por terra é lendário e que vive assombrado pela paixão tirânica que sente pela esposa que nunca pode ter por completo; Clara, a matriarca, evasiva e misteriosa, que prevê a tragédia familiar e molda o destino da casa e dos Trueba; Blanca, sua filha, de fala suave, mas rebelde, cujo amor chocante pelo filho do capataz de seu pai alimenta o eterno desprezo de Esteban, mesmo quando resulta na neta que ele tanto adora; e Alba, o fruto do amor proibido de Blanca, uma mulher ardente, obstinada e dotada de luminosa beleza. As paixões, lutas e segredos da família Trueba abrangem três gerações e um século de transformações violentas, que culminaram em uma crise que levam o patriarca e sua amada neta para lados opostos das barricadas. Em um pano de fundo de revolução e contrarrevolução, Isabel Allende traz à vida uma família cujos laços privados de amor e ódio são mais complexos e duradouros do que as lealdades políticas que os colocam uns contra os outros.

Resenha:
Resolvi começar a falar dessa história de um jeito diferente do que normalmente faço. Ela pede isso. Começarei pelo próprio trecho ressaltado na contracapa do livro:


“Em alguns momentos tenho a impressão de que já vivi isto e que já escrevi estas mesmas palavras, mas compreendo que não sou eu, mas outra mulher, que anotou em seus cadernos para que eu deles me servisse. Escrevo, ela escreveu, que a memória é frágil, e o transcurso de uma vida, muito breve, e tudo acontece tão depressa que não conseguimos ver a relação entre os acontecimentos, não podemos medir a consequência dos atos, acreditamos na ficção do tempo, no presente, no passado e no futuro, mas também pode ser que tudo aconteça simultaneamente.”

Quanta delicadeza nesse breve parágrafo. O livro é todo assim, com essa escrita doce e profunda, que parece cantar nos nossos ouvidos. Uma escrita que me faz identificar com a minha própria, que conversa comigo de um jeito tão particular e íntimo. Isabel Allende desenha as imagens de sua história com as palavras. Ela fala de amor, dor, solidão, sofrimento e perdão. Fala de vidas tão reais, com um toque do “sobrenatural”, que torna impossível não nos relacionarmos com todos os personagens pelo menos em algum momento. São extremamente humanas as vidas que saem da ponta do lápis de Isabel.

Clara, Blanca e Alba, as mulheres Trueba, são o fio condutor da história. As três ganham seu quinhão de protagonismo e afetam o curso da história de Esteban Trueba, o marido, pai, avô. Alguns outros personagens ganham mais destaque também, cada qual com sua importância, participando da vida desses quatro grandes espíritos. A narrativa acompanha desde a infância de Clara até o momento em que Esteban deixa o mundo (não é spoiler se ele anuncia isso desde o momento que fala pela primeira vez) e sobra Alba, a última dos Truebas, destinada a eternizar os acontecimentos que amarraram a vida daqueles que ela tanto ama e amou.

Clara, a clarividente, que conversa com espíritos e move os objetos com sua mente, teve uma infância tocada pelo sobrenatural, pela excentricidade e por muito silêncio. É impossível descrever a liberdade do espírito de Clara e a paz que ela transmite. A meu ver, ela é o grande centro da história, pois ela influenciou, não importa de que plano da vida, o decorrer de todos os acontecimentos. Era esposa, mãe, avó. Era uma mulher com tanta força que descrevê-la parece-me uma tarefa um tanto quanto injusta.

Blanca é filha de Clara e puxou a força da mãe em intensidade. E ainda que ambas fossem mulheres extremamente fortes, o modo como a vida as tratou foi bem diferente. Clara vivia em seu própria mundo, de modo que os impactos que sofreu foram todos absorvidos pela convicção em uma verdade mundo além do que a vida material era capaz de prover (não que isso invalidasse seus sentimentos e dificuldades, claro). Já Blanca vivia no mundo real e sofreu todos os baques que a vida de uma mulher no começo do século XX dava. Ela demonstra resiliência, aceitação e renúncia. Precisou se submeter a situações que, além de humilhantes, muito anularam a essência de quem ela era. Precisou se reinventar a duras penas, levada pelo amor sentido por sua filha.

Alba, é um espírito tão livre quanto a vó. Porém, com uma inquietação e uma incerteza maior sobre as coisas que faz. Ela tem mais dúvida. Clara tinha plena convicção de seus atos e se manteve firme até o final. Alba foi muito influenciada pela paixão que sentia por Miguel, portanto demorou para encontrar a razão que a movia e isso fez com que muitas das suas ações fossem inseguras. Ela ainda não tinha certeza sobre si. Mas quando a encontrou, nada foi capaz de a derrubar. Caminhando para o final da história, quando a ditadura militar do Chile está em seu pleno auge, ela enfrenta situações que muitas de nós desejamos nunca desejar enfrentar, mas encontra a força das mulheres Truebas dentro de si. O personagem dela foi o que mais amadureceu ao longo da história e acompanhar isso foi incrível. O amor que ela sente pelo avô, ainda que ele fosse o retrato exato do que ela lutava contra, é um dos sentimentos mais sólidos do livro e eu torci com tudo que tinha dentro de mim para que eles não brigassem, como Esteban fez com todas as outras mulheres de sua vida.

Esteban. Ah Esteban. O homem que derrubou tantas no pantanal. O homem de crenças tão sólidas e tão fiéis a elas. O retrato claro da sociedade patriarcal e opressora que existia na época (e ainda existe até hoje vamos ser bem sinceras). E ao mesmo tempo um homem que sentia até o âmago de seu ser. Acho que esse foi um conflito muito grande por ele, ter que ser sempre duro e “homem” e ao mesmo tempo sentir com tanta intensidade. Esteban Trueba é o fruto de seu tempo. Ele marcou a vida de literalmente todas as pessoas que cruzaram seu caminho, teve inúmeras oportunidades de mudar e fazer o bem e sofreu muito com as consequências de suas escolhas. Ainda assim, no fundo eu torci para que ele não terminasse a vida sozinho. A amor dele por Alba foi um dos poucos sentimentos, junto com o seu amor por Clara, que ele se permitiu mostrar.

Poderia me perder por horas falando dessa história. Ela me deixou em uma ressaca literária por alguns dias, me sugou ao extremo. Ainda hoje, algumas semanas depois de ter terminado de ler, não consigo nomear tudo que a história representou para mim. Posso dizer que algumas imagens ficaram gravadas em minha memória. O silêncio. O tempo. A mudança. Tudo isso destrinchado em pessoas humanas e em vidas que são uma metáfora da realidade. Sei que muito aprendi com as palavras escolhidas para contar essa história. Aprendi sobre os laços de família e como a história se reinventa nas gerações que passam. Aprendi sobre a redenção e o perdão e principalmente aprendi sobre força.

Isabel Allende constrói sua narrativa de maneira singular, com muito mais narração do que diálogos. Os acontecimentos são descritos pelo narrador da história, desconhecido até o epílogo do livro. Um narrador que reveza com o relato do próprio Trueba, autor de algumas das passagens. A partir dessa troca de perspectiva, conseguimos entrar um pouco mais a fundo nos sentimentos internos deste homem que nos desperta tantos sentimentos contrários. Ele abre seu coração e se mostra humano, passível de falhas e muita teimosia, pois até suas próprias palavras estavam salpicadas de orgulho e egoísmo, o impedindo de reconhecer seus erros.

Isabel jogou com uma diferença de escrita para os relatos de Esteban e para a narração da história, algo memorável e muito difícil de se fazer. Não é à toa que a autora tem o destaque e o reconhecimento que tem. Muito merecido. Ela aprofundou muito bem na personalidade de cada personagem. Dissecou seus sentimentos e os expôs ao leitor de uma forma que só não entende quem não quer. Sem falar na sutileza de contar sobre momentos tão sofridos como a ditadura do Chile sem nunca dizer um nome verdadeiro, seja de alguma figura de destaque, partido ou outra coisa.

Tenho a dizer, porém, que a escolha narrativa de Isabel por vezes se mostra um pouco cansativa. Como são poucos os diálogos e os acontecimentos são narrados pelo narrador, como uma contação de histórias mesmo, a leitura não tem uma dinâmica muito fluída. Esta característica, somada às 446 páginas do livro, me fizeram demorar um pouco mais do que o costume para terminar a história. O engraçado é que apesar disso, não passou pela minha cabeça hora nenhuma em interromper a leitura. Alguns leitores podem se cansar rapidamente, ainda mais por se tratar de uma narrativa que se envolve tão profundamente em sentimentos e relações humanas, mas eu recomendo que persistam, porque ao fim da obra compreendemos a grandeza dela. Todas as peças se encaixam. Vão por mim. 

8 comentários

  1. Eu ainda não li nadinha de Isabel,mas esse livro dividiu opiniões e acredito muito que seja por conta da narrativa mais lenta e sem os diálogos.
    Mas em contrapartida, pude sentir a poesia que há na narrativa da autora, em cada pedacinho de história e no misto de sentimentos que o leitor acaba sentindo ao mergulhar nesses dramas familiares!
    Não tenho certeza de que gostarei de ler, mas quero muito!!!! rs
    Beijo

    Angela Cunha Gabriel/Rubro Rosa/O Vazio na Flor

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  2. Eu sou muito medrosa, com certeza não pegaria um livro com um título desses pra ler por livre e espontânea vontade, apesar de ser muito curiosa hahaha. Felizmente, parece ser bem diferente de tudo o que eu estava imaginando. Também achei de uma delicadeza enorme a escrita do quote e as lições que você tirou do livro. Eu prefiro livros com mais diálogos, pois para mim flui melhor, mas essa forma de contar a história parece combinar muito com o livro.
    Beijos

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  3. Olá Maíra!
    Parece ter sido uma experiência de leitura bastante intensa, né? A gente sabe que o autor realmente se aprofundou na história quando passamos dias com ela na cabeça após a leitura, e felizmente A Casa dos Espíritos é assim.
    Além disso, é importante ressaltar o aspecto histórico da obra. De ditadura mesmo eu só conheço a nossa (tipo, de pegar o livro de História para aprender rsrsrs) logo acredito que saber um pouco mais sobre esse período sombrio para a população chilena é algo engrandecedor.
    Por outro lado, por mais que haja todo um cuidado na construção dos personagens, eu acho que leria o livro de forma bem lenta, pois diálogo faz toda diferença para envolver a gente. Mas isso não tira o brilho da história de forma alguma.
    Beijos.

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  4. Oi Maira. Que resenha cheia de significados hein? Deu pra perceber que você adorou, acho que até mais que isso. Eu acho lindo encontrar livros que conversem tanto com a gente que o que sobra é uma ressaca extrema.
    Não conheço a obra nem a autora, mas eu me arriscaria a ler, achei a sinopse bem instigante, personagens diferentes e que parecem ser tão importantes para a história.
    Abraços

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  5. ola Deu para sentir o quanto esse livro te emocionou .sd
    eu nunca tinha lido resenha desse livro ,embora tenha sido escrito na decada de 80 .
    mas confesso que apesar de ser classificado como realismo fantastico eu fiquei na duvida do que realmente se trata .
    Sabemos o quanto esse livro é elogiado e que narra um periodo dificil ,mas não senti vontade de ler. .

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    1. Quis dizer .realismo magico
      Desculpe pelo erro

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  6. Eu confesso que nem conhecia esse livro, e lendo a resenha agora, acho que não é o tipo de livro que eu iria gostar. Ele tem uma premissa até interessante, e parece que ele é cheio de personagens bem construídos. Mas acho que pelo livro ser mais lento e um pouco cansativo eu não iria gostar tanto.

    Bjss ^^

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  7. Maíra!
    Adorei o trecho que escolheu para iniciar sua resenha.
    Os livros da Isabel são tão vívidos que parece estarmos dentro dele ou da trama quando os lemos.
    Já tive oportunidade de ler, nossa há tanto tempo que nem lembro e já assisti o filme sei lá quantas vezes e sempre percebo um detalhe diferente.
    A saga da família durante várias gerações traz muitos conflitos, inclusive a parte política, achei importante a contextualização, gosto quando há fatos verídicos misturada a trama.
    cheirinhos
    Rudy

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