Resenha: O Rei do Inverno (As Crônicas de Artur - Volume 1) - Bernard Cornwell

Autor: Bernard Cornwell
Páginas: 564
Ano: 2001
Editora: Grupo Editorial Record
Gênero: Romance histórico
Adicione: Skoob
Onde Comprar: Amazon
Nota:   
Sinopse: O Rei do Inverno conta a mais fiel história de Artur narrada até hoje. A partir de novos fatos e descobertas arqueológicas, este romance retrata o maior de todos os heróis como um poderoso guerreiro que luta contra os saxões para manter unida a Britânia, no século V, após a saída dos romanos. Um general poderoso que, durante sua vida, jamais reinou. Só foi coroado muitos anos após sua morte, depois que sua história foi contada e reinventada por menestréis e escritores ao longo dos últimos 15 séculos. Neste livro de Cornwell, o leitor irá descobrir um novo Artur e muitos detalhes absolutamente novos sobre sua época e os personagens mais marcantes em sua vida, como Merlin, Guinevere, Lancelot e Morgana. Um clássico moderno inspirado em uma das maiores histórias já escritas.
Resenha:
O que seria melhor, ir pelos flancos ou surpreender pela dianteira? Casamentos arranjados compram a paz? Até onde a vingança te guia? Se todas essas perguntas te intrigarem você pode sentar e ouvir a história que Derfel vai te contar e quem sabe encontra algumas respostas. Ele é um velho monge que, a de Igraine, escreve suas memórias da vida do grande Rei Artur para eternizá-las e passá-las à todas as gerações. Ele narra sua visão do mundo e a partir dela enxergamos um lado diferente da lenda do cavaleiro da Távola Redonda que já nos foi contada tantas vezes e com tantas cores diferentes.

O Grande Rei Uther Pendragon estava doente e seu único herdeiro, Mordred, havia morrido em batalha. Seu filho bastardo, chefe dos cavaleiros (no caso o Artur mesmo), foi banido como culpado da morte do irmão e sua filha Morgana jamais poderia assumir a posição de líder da Bretanha. Encurralado nessa situação, Uther aposta na gravidez de sua nora para lhe dar o conforto que seu coração velho e preocupado precisa. Mas o pequeno herdeiro do Grande Rei nasce aleijado e lança um mau presságio em toda a Casa Pendragon. Para mantê-lo seguro ele e sua mãe são mandados até Avalon para ficarem sob os cuidados de Morgana (Merlin estava sumido) até que fosse possível retornar. Vale lembrar que a história do Rei Artur, independente da versão, envolve uma boa briga com os saxões e possíveis mortes de bastante gente então toda a bretanha estava em constante ameaça de guerra.

Lá em Avalon, começamos a nos envolver com nosso pequeno Derfel e descobrimos como ele se viu preso bem no meio da dramática e agitada vida da realeza de Caer Cadarn (ou Camelot, como você preferir chamar). Com o passar do tempo e alguns acontecimentos depois, Derfel e sua melhor amiga Nimue, a aprendiz e amante de Merlin, vão para Caer Cadarn acompanhando Morgana para viver no palácio com o pequeno Mordred. Com a morte de Uhter, o pequeno se torna rei e é designado a quatro guardiões que irão protegê-lo dos perigos externos e internos, vindos da própria regência de seu reino. A situação estava delicada, mas para os inimigos não há melhor oportunidade para um ataque e tudo que o reinado de Mordred não tem é sossego. Os saxões se aliam a alguém inesperado e a guerra começa.

Em meio a todo esse cenário, acompanhamos de perto a luta do paganismo contra o domínio católico que tomava a Grã-Bretanha. Os druidas e feiticeiros ainda eram considerados por muitos como os detentores da sabedoria e comunicação com os deuses, mas pelo descrédito de outros foram enfraquecidos e desrespeitados. Merlin era o único que ainda tinha uma posição de confiança e por isso depositaram nele todas as esperanças de um tempo de paz, já que ele sabia a forma mágica e misteriosa de satisfazer as vontades dos deuses. Porém, Merlin estava desaparecido e isso faz com que Artur, que sempre fora muito querido dele, precise tentar de tudo para trazê-lo de volta.

É aí que entra Nimue, a garota tocada pela magia. Ela e Derfel tem uma relação muito profunda e são ligados pelo sangue (literalmente, eles fizeram um pacto), de modo que ele é um elemento importante para a vida dela e vive versa. Mas Nimue, apesar de todo seu poder e sabedoria, encontra algumas montanhas em seu caminho e sofre abusos e reprimendas que deixam nela cicatrizes irreparáveis. Cega pela fúria, ela busca todos os meios entre a terra e o céu para acabar com os inimigos que a fizeram sofrer tanto e de quebra dá uma ajudinha para Artur na sua infindável luta contra os saxões. Apesar de todo seu sofrimento, ela é um grande exemplo de poder e determinação feminina.

Já Morgana, infelizmente, não tem um papel de destaque na narrativa. Ela é caracterizada como uma sábia mulher, conhecedora dos ritos e tradições antigas, mas pela pouca proximidade com as tarefas de Derfel não tem muita participação. Mas isso não quer dizer que ela não seja a personagem forte que todos respeitamos. Na história de Bernard Cornwell, Morgana sofreu um acidente quando criança e teve uma parte do seu corpo queimado pelo fogo que a atingiu. Por isso, ela usa uma máscara de ouro que cobre suas cicatrizes e aprendeu desde cedo a vencer a dor de cabeça erguida. Segundo Derfel, muitas pessoas especulavam o que tinha por baixo da máscara e esse era um dos muitos motivos que faziam de Morgana uma mulher muito temida e respeitada, afinal cicatrizes eram vistas como marcas do demônio.

O papel das mulheres é um pouco secundário, porque o autor evidencia o lado político da história e nessa parte as mulheres não tinham voz. Elas não demonstram força nem autonomia e a grande maioria só consegue exercer um pouco de influência quando usa de seus poderes da sedução. Apenas com as mulheres de Avalon que a situação era de menos subordinação, afinal elas tinham um ar de autoridade que eram poucos os capazes de desafiá-las.

Ao contrário de As Brumas de Avalon (se você perdeu corre aqui), O Rei do Inverno é um livro com os pés muito mais no chão do que nas nuvens. Por Bernard Cornwell ser um historiador ele tem um compromisso muito maior com descrever os acontecimentos compatíveis com a realidade da época e com os fragmentos da lenda encontrados por ele em sua pesquisa. Portanto, seu universo é mais político, cético e aborda características da história de modo mais real e concreto. É um livro denso e minucioso, aprofundado nos conflitos ideológicos e internos e traz páginas e mais páginas de discussões sobre táticas de guerra e políticas de reinado. Ele explica tão bem as estratégias utilizadas que chega a ser quase uma narração técnica. Além disso, as lutas tem um destaque crucial na narrativa, para ilustrar a situação de guerra a qual estavam todos enfrentavam. É nessa hora que a magia faz falta, para suavizar a história e dar um toque de mistério nas conquistas e nas derrotas.

Mas eu falei, falei, falei e no fim das contas não disse nada sobre Artur não é?! O que acontece é que esse primeiro livro contextualiza a situação em que a Grã-Bretanha estava e narra os acontecimentos antes de Artur se tornar rei (se é que nessa versão ele irá se tornar). Ele, como um dos guardiões de Mordred, precisa proteger o menino e tomar algumas decisões no seu lugar e como Derfel o venera ele fala muito sobre a personalidade e os feitos de Artur. Assim, conseguimos ver sua luta contra seus princípios de ética e perdão para conseguir sair vitorioso de uma luta que a muito já parecia perdida. Sua honra é testada a todo momento e ele conhece o sacrifício pessoal que um governante precisa fazer diariamente em favor da boa condução de seu povo. O fim desse capítulo conclui o conflito apresentado, mas só abre mais portas para o desenvolvimento da história dessa cavaleiro que tanto me fascina. Pelo que já li da sinopse do próximo (Inimigo de Deus), ganhamos um pouco mais da companhia do querido Artur e estou esperando ansiosamente por isso. Acho que já deu pra perceber como sou fã dele, não é mesmo.

Um comentário

  1. Oi, Maíra!
    Eu amo a lenda do Artur, mas não sei se leria essa série. Porém, boto fé em quem ler tudo porque os livros são gigantes hahahha
    Beijos
    Balaio de Babados
    Promoção Quatro Anos de Minhas Escrituras
    Sorteio Literário de Carnaval

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