Cidade das Garotas - Elizabeth Gilbert

26 de julho de 2019

Título: Cidade das Garotas
Autor: Elizabeth Gilbert
Páginas:424
Ano:2019
Editora: Alfaguara, Companhia das Letras
Gênero: Romance
Adicione: Skoob
Onde Comprar: Amazon
Nota:   
Sinopse: Elizabeth Gilbert retorna para o texto ficcional com uma inesquecível história de amor na Nova York dos anos 1940. Narrado a partir da perspectiva de uma mulher que olha para o passado com felicidade, Cidade das Garotas explora a ideia de sexualidade, bem como as idiossincrasias do amor.
Em 1940, Vivian Morris tem 19 anos e acabou de ser expulsa da faculdade. Seus pais, ricos e influentes, a enviam para Manhattan, onde mora sua tia Peg, dona de um teatro chamado Lily Playhouse. No teatro, Vivian passa a se relacionar com um grupo de personagens pouco convencionais, mas extremamente carismáticos: grandes atrizes, galãs, escritoras e produtores.
Mas quando Vivian comete um erro profissional que resulta em um escândalo, ela passa a ver aquele mundo com outros olhos. No fim, é essa jornada que a ajudará a descobrir o que ela realmente deseja — e qual tipo de vida ela precisa levar para que isso aconteça. É nessa jornada que Vivian também encontra o amor de sua vida, uma pessoa que se destaca de todo o restante.
“A certa altura da vida de uma mulher”, escreve Vivian, “ela se cansa de sentir vergonha o tempo inteiro. Depois disso, ela está livre para se tornar quem é de verdade.”


Este livro foi cedido pela Editora Alfaguara (Companhia das Letras), porém as opiniões são completamente sinceras. Não sofremos nenhum tipo de intervenção por parte da Editora. 

Resenha:

Da mesma autora de Comer, Rezar e Amar (que li a muitos anos e lembro de ter gostado muito) vem agora Cidade das Garotas.

O livro começa com uma carta que Ângela (uma jovem) escreve a Vivian (uma senhora) no ano de 2010. Essa é a terceira vez que elas se comunicam (a primeira quando Ângela se casou, a segunda quando seu pai morre e esta última, por ocasião da morte de sua mãe) e a jovem questiona Vivian sobre qual o papel desta na vida de seu pai. Vivian então começa a contar sua história, deixando claro que se trata, na realidade, de sua versão dos fatos.

"O que eu era do pai dela? Só ele poderia responder a pergunta. E como nunca optou por falar a respeito com a filha, não cabe a mim contar o que eu era dele. Posso, contudo, contar a Ângela o que ele era para mim."


Começamos o livro no verão de 1940, quando uma Vivian de 19 anos se muda para a cidade de Nova York, após ser expulsa da faculdade por ter sido a segunda pior aluna do primeiro ano tendo reprovado em absolutamente TODAS as provas (a única pior que ela foi uma aluna que contraíra pólio e não frequentava as aulas) e, seus pais, não vendo correção para as atitudes da filha (digamos que ela era bem rebelde para a época em que vivia e se mantivesse absurdamente ocupada no horário de aulas, embora nem ela mesma soubesse com o quê kkkkk) resolvem mandar a jovem morar com sua tia, Peg, também de comportamento considerado subversivo, dona de um teatro.

Na bagagem Vivian leva sonhos, expectativas e uma máquina de costura, seu maior talento e verdadeira paixão.

Vivian chega para morar no teatro, na companhia de dançarinas, artistas e Olive, secretaria de sua tia, uma senhora distinta e rigorosa, amiga de Peg de longa data.

Temos uma personagem narradora forte, livre, desapegada de relacionamentos e totalmente fora dos padrões que me ensinaram a visualizar quando ouço falar em anos 40, 50. Ela bebe, fuma, transa com quem quer, na hora que deseja, divide a cama com uma amiga com quem não tem relações mas por quem nutre uma adoração e um amor únicos.

O que vemos constantemente na convivência de Vivian, sua tia e todas as garotas da companhia de teatro, é sororidade pura... União, amizade, cumplicidade, são constantes no enredo.

Mas, assim como na vida real, as coisas não seguem um rumo de felicidade constante e nossa protagonista, num rompante de ciúmes, insegurança, bebidas e passionalidade, em um conjunto de atitudes impensadas, tem uma noite de loucura com sua amiga Célia e o marido de uma pessoa que ela admira muito... E isso, amigos, muda os rumos da nossa história e nos deparamos com uma Vivian arrependida, sofrida e triste..e sua vida tem um retrocesso...
"No último dia e meio, estivera bêbada e ferrada e assustada, fora aviltada e abandonada e repreendida. (...) Tinha sido exposta, entalhada e totalmente perseguida. (...) Não havia muito que Walter pudesse dizer para aumentar minha vergonha e me ferir ainda mais."




O livro é todo narrado por Vivian, direcionada a Ângela e a autora, em momentos estratégicos, deixa isso claro.. isso é importante pq a leitura nos leva a um processo de envolvimento e imersão onde por vezes esquecemos da intenção original da história (contar a Ângela sobre o que seu pai era na vida de Vivian).

A autora retrata a forma como a Segunda Guerra Mundial afetou Nova York e seus moradores com maestria e sem exageros de narrativa. Em nenhum momento temos cenas viscerais mas sim sempre cheias de sentimentos e emoções, o que torna a leitura um pouco mais influenciadora em níveis emocionais.

É uma história de descobertas, de amizade mas de perdas e dor tbm...a Guerra nunca é bonita e sempre muito onerosa para todos os envolvidos, direta ou indiretamente e isso é percebido no decorrer da leitura.

A maior parte do livro conta 5 da vida de Vivian mas perto do final (mais um detalhe primoroso da escrita pois essa mudança coincide com a proximidade do final da guerra) damos um salto no tempo para encontrar nossa protagonista 20 anos depois...

"Tudo fica diferente depois que uma guerra termina. Já vi isso antes. Se tivermos bom senso, estaremos todos preparados para fazer ajustes. (...) A Nova York pós-guerra era um animal esplêndido, faminto, impaciente e crescente."

A história toda foge de uma regra que eu imaginei ao pensar em como seria a vida nas décadas de 40 e 50 com relação a comportamentos e posicionamentos da sociedade no que diz respeito as mulheres, em especial às independentes.... E isso foi uma experiência incrível de leitura, as surpresas me atingindo a cada capítulo.

"Com o máximo de orgulho, consegui observar todas as agitações e transformações dos anos 60 e saber o seguinte: Minha gente chegou lá primeiro."



O livro se torna uma constante lição de vida, especialmente quanto a julgamentos e preconceitos sobre comportamentos das pessoas com quem convivemos e em como isso não muda o caráter delas.... Confesso que chorei em alguns momentos. Chorei por Vivian mas principalmente por identificar na história dela fatos que podem ter acontecido com qualquer de nossas antepassadas e que nunca puderam ser contadas... Chorei pq nem nos meus piores dias eu sequer cheguei perto de imaginar viver e superar coisas a que cada uma delas sobreviveu... Chorei por me imaginar forte quando na verdade elas eram fortalezas indestrutíveis...

"O mundo não é plano. Você cresce achando que as coisas são de certa maneira. Acha que existem regras. Que as coisas têm que ser de um jeito. E você tenta viver em linha reta. Mas o mundo não liga para as suas regras ou as suas crenças. O mundo não é plano, Vivian. Nunca vai ser. Nossas regras não significam nada. O mundo simplesmente acontece com você de vez em quando, é isso que eu acho. E as pessoas têm que seguir por ele da melhor forma possível.”

Eu tinha lido Comer, Rezar, Amar a muitos anos atrás mas confesso que não lembrava da escrita de Elizabeth Gilbert ser tão envolvente então acho que posso afirmar que, para meu gosto e da forma como me atingiu, essa leitura mostra nosso amadurecimento... Dela enquanto criadora e de mim enquanto expectadora. Junto com algumas poucas obras esse se torna um livro de cabeceira para mim, algo que sempre vou ter vontade de reler.

A edição da Companhia das Letras mais uma vez não decepciona e apresenta um livro de qualidade inquestionável, com uma revisão perfeita, sem erros... A austeridade da diagramação condiz com o assunto abordado e isso mostra a eficiência dos envolvidos.

"Às vezes, levamos muito tempo para entender as coisas."

E quanto ao pai de Ângela???? Ah, isso fica pra vcs descobrirem pq vale a pena desbravar cada página para chegar a esse momento!


11 comentários

  1. Caramba!Que resenha! Admito que não conhecia a obra, mas só conheço o trabalho da autora por Comer, Rezar e Amar que também li há anos e que gostei demais na época.
    Mas pelo que li acima, a autora construiu não somente um cenário único, num passado já tão diferente deste presente doido que vivemos, onde tabus, preconceitos eram ainda maiores,mas também trouxe várias relações humanas muito bem aprofundadas no enredo.
    Adorei o nome Angela ali.rs(se bem que o meu não tem acento)mas esse contar a história desta forma, me agradou muito.
    Um voltar ao passado, com sentimentos em conflitos. A dor e a alegria, não pela rebeldia, mas pela vida que não perdoa e nem dá trégua!
    Com certeza, o livro vai para a lista dos mais desejados!
    Beijo

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  2. Oi Fabíola,
    Nossa, sua resenha está muito completa, adorei, fiquei mais inteirada sobre o que encontrar neste livro, e quero muito ler também!

    Beijos Mila

    Daily of Books Mila

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  3. Nossa, mas que lindo esse livro parece ser.Gostei desse jeito de contar a história, direcionada a outra e por voltar ao passado pra explicar tudo. Os tempos de guerra e todas as mudanças, sentimentos e perdas, as dificuldades da época, isso me chama atenção. Mas parece deixar muito mais o que pensar do que só a história dela. É vida. Uma forma de vida, os aprendizados e os erros no caminho. Gostei bastante do que ele parece deixar. Parece daquelas histórias que prendem fácil pela realidade das coisas e como é fácil se jogar na história. Muito bom.

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  4. Olá Fabíola!
    Ainda não conheço a escrita da autora, mas ouço muitos elogios. Sem dúvida deve ser emocionante acompanhar a história de vida da personagem nos tempos passados, ver de perto como eram os comportamentos esperados para as mulheres da época e o preconceito que aquelas que não seguiam essas padrões de submetidas. Como o pai de Ângela se enquadra nessa história me deixou realmente curiosa.
    Beijos

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  5. Olá! Estou de olho nesse livro desde o seu lançamento, ainda mais porque ainda não tive contato com a escrita da autora, e esse enredo mostrou ser bem interessante nos presenteando com uma leitura forte, emocionante e o mais importante inesquecível. Os lencinhos já estão preparados.

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Teresa Syllos26/07/2019 15:25

    Adorei sua resenha! Me instigou a leitura desse livro. Bora lá! ��

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  8. Olá Fabíola!
    É nítido que a autora evolui muito como escritora se formos comparar esta obra com Comer, Rezar e Amar, embora todos os dois sejam excelentes livros. Gilbert mostra que fez um extenso trabalho de pesquisa para retratar a Nova York de 1940, bem como o ambiente teatral em si, cuidados que só agregam profundidade para a trama. A protagonista, com seu bom humor, rapidamente parece conquistar a simpatia do leitor, e acompanhar toda essa jornada da mesma torna-se extremamente prazeroso.
    Beijos.

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  9. Olha!! Tem uma Vivian no livro!!!
    Já quero ler esse livro e apesar de ainda não ter lido nada da autora, sempre leio boas críticas e esse livro me pareceu mesmo bem interessante!
    😘😘😘

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  10. Bah!! AO mesmo tempo que fiquei levemente curiosa pela resenha (adoro histórias com mulheres fortes!!)eu sinceramente não tenho vontade de ler livros com esse tipo de temática meio de auto ajuda, sei lá, hahahahah Essa vibe meio que me foi passada pela resenha

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  11. Olá Fabíola ;)
    Nossa, nunca soube que a autora de “Comer, Rezar e Amar” tinha lançado outra obra!
    A protagonista parece bem diferente das mulheres dessa época mesmo, mas é bom pra mostrar que nem todo mundo é como a gente pensa né?
    Acho que poucas vezes li um livro sobre a 2a Guerra que falasse mais sobre a vida mais pessoal da personagem, e não só sobre a Guerra em si.
    Que bom que o livro foi uma ótima experiência, pois acho que meu primeiro contato com a escrita da Elizabeth terá que ser com “Cidade das Garotas”!
    Bjos

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