Se a Rua Beale Falasse - James Baldwin

18 de abril de 2019

Título: Se a Rua Beale Falasse
Autor: James Baldwin
Páginas: 224
Ano: 2019
Editora: Companhia das Letras
Gênero: Literatura Estrangeira, Ficção, Drama
Adicione: Skoob
Onde Comprar: Amazon
Nota:  
Sinopse: Lançado em 1974, o quinto romance de James Baldwin narra os esforços de Tish para provar a inocência de Fonny, seu noivo, preso injustamente. Livro que inspirou o filme dirigido por Barry Jenkins, vencedor do Oscar por Moonlight.
Tish tem dezenove anos quando descobre que está grávida de Fonny, de 22. A sólida história de amor dos dois é interrompida bruscamente quando o rapaz é acusado de ter estuprado uma porto-riquenha, embora não haja nenhuma prova que o incrimine. Convicta da honestidade do noivo, Tish mobiliza sua família e advogados na tentativa de libertá-lo da prisão.
Se a rua Beale falasse é um romance comovente que tem o Harlem da década de 1970 como pano de fundo. Ao revelar as incertezas do futuro, a trama joga luz sobre o desespero, a tristeza e a esperança trazidos a reboque de uma sentença anunciada em um país onde a discriminação racial está profundamente arraigada no cotidiano.
Esta edição tem tradução de Jorio Dauster e inclui posfácio de Márcio Macedo.

Este livro foi cedido pela Editora Companhia das Letras, porém as opiniões são completamente sinceras. Não sofremos nenhum tipo de intervenção por parte da Editora. 

Resenha:


"É um milagre saber que alguém te ama."


Se a Rua Beale Falasse, é o tipo de livro que nos pega desprevenidos, e nos levam em uma jornada para o cotidiano comum de uma parcela da sociedade, que lida com as dores e alegrias de suas vidas.
E mesmo tendo toda a sua trama se passando na década de 1970, os temas são extremamente atuais, o que me leva a ponderar que a sociedade não evoluiu tanto assim como acreditamos, o racismo ainda persiste em sua raiz, se expandindo e ditando o dia a dia cruel da população negra.

Não é um livro policial, então apesar de ter um crime como pano de fundo, é um drama, que se foca nos sentimentos das pessoas, e como suas vidas são impactadas pela prisão de uma pessoa amada, ainda mais pela certeza da inocência dela, e da devastação que isso está trazendo para ela e as pessoas próximas.



No livro vamos acompanhar a história de Tish, uma jovem de 19 anos negra, e de seu noivo Fonny, de 22 anos, também negro, e preso. Ele foi acusado do estupro de uma jovem porto-riquenha, e mesmo sendo inocente, e não existindo provas de que foi ele o criminoso, sua prisão foi efetuada.
Foi acusado de um crime, a pessoa que o reconheceu, sequer o olhou realmente, ela tinha sido atacada por um homem negro, e apontou o primeiro homem negro que colocaram em sua frente, para que alguém fosse culpado e pagasse pelo sofrimento que ela passou, ela deixou isso para lá, sem sequer se importar se estava destruindo outra vida. Já não era o problema dela. 

"Ela diz que foi estuprada por um negro, e aí puseram um negro no meio de uma porção de caras de pele mais clara. E por isso. obviamente, ela diz que foi você."

Tish, é a narradora dos eventos e está grávida de três meses, ela dá a notícia ao noivo em uma das suas visitas, o medo por ele é uma constante na vida de Tish, por tudo o que ele está passando atrás das grades, se ele vai acreditar que o filho é dele, se ela vai conseguir o ajudar para que ele limpe o nome dele.

Medo. Amor. Esperança. Lealdade... Família.

Essas palavras são um resumo do livro. E talvez por isso ele seja tão atemporal. Poderia estar descrevendo não uma história do Harlem de 1970, e sim de São Paulo de 2019.

Tish e Fonny, são um casal tão bem construído e forte, a paixão entre eles começou enquanto ambos ainda sequer estavam preparados ou sabiam o que era o amor romântico. Amigos de infância, foram o apoio e base um para o outro por toda a vida. Em Tish, Fonny, que sofria com o preconceito dentro de sua própria casa, encontrou um lar. Fez da família dela a sua, e ela fez dele o irmão que nunca teve, o amigo, e por fim o amante.

"O riso e o amor vêm do mesmo lugar: mas pouca gente vai lá."

Fonny, foi preso não porque estava perto do local do crime, ou por ter um histórico. Foi preso porque desejou mais do que a sociedade branca esperava que um negro desejasse para si. Ele quis romper o ciclo de violência, de desespero e de solidão. Sua alma de artista, quis voar. E ele quis se mudar de seu bairro de infância: O Harlem, o bairro negro, para o bairro dos brancos, onde estava concentrado os artistas, com quem ele desejava viver, pois sua alma era de artista.

"Porque, veja bem, ele havia descoberto seu centro, seu próprio centro, dentro dele: e isso era visível. Ele não era o preto de ninguém. E isso é um crime da porra deste país livre. Supõe-se que você seja o preto de alguém. E se você não for o preto de alguém, então você é um preto mau: e foi isso que os policiais decidiram quando Fonny se mudou para downtowm."

Então, um policial branco tomou para si a missão de ferrar o Negro que Sonhava.

E enquanto acompanhamos Tish, lutando para o tirar da cadeia, podemos ver o quão importante é o apoio da família e da comunidade em que você vive, a família de Tish, a apoia, aceita sua gravidez, e a protege, e com isso protege e luta por Fonny, então mesmo preso, Fonny, descobre dentro de si forças para sobreviver no dia a dia brutal do sistema carcerário, e manter a esperança de que vai conseguir limpar seu nome.

Se a Rua Beale Falasse, me fez sentir aquela dor na boca do estomago, de quando você sente que tudo está errado e não sabe o que fazer para modificar. O que podemos fazer para evitar que Fonnys e Tishes da vida, não caiam nos ciclos marcados pelo racismo em nossa sociedade?

Um livro que nos pede um momento de reflexão, nos pede que sejamos, mais como a família de Tish e menos como a família de Fonny, pois o mundo precisa de pessoas que se importam umas com as outras, e que lutem pela verdade. Que acreditem, e não fechem os olhos ou julguem as pessoas apenas pela cor de sua pele.

Que belo livro.

O autor James Baldwin. escreveu diversos livros que foram referências para os escritores negros das décadas posteriores, ele usa uma linguagem poética e triste, para narrar histórias tão cruas e duras, que só podem ser lidas como algo real, algo que poderia estar acontecendo com a pessoa ao seu lado ou com você.

Ele escreveu o livro, baseado em uma história real de um amigo, que foi acusado de um homicídio, sem provas alguma além da cor de sua pele. Pegou um  horror real, e moldou uma história para ser um farol de esperança para a sociedade, mesmo 45 anos depois de ser escrito.

A edição é um lançamento da Editora Companhia das Letras, com um excelente trabalho de tradução e arte para o livro.  Algo que eu adorei nessa edição foram as capas! Sim, a editora teve todo o cuidado de trazer aos leitores as duas opções: A capa com a arte baseada no filme e uma original, me senti muito mimada pela Companhia das Letras. Quem quiser pode escolher usar a luva do filme ou não. Ambas as artes sao atraentes.


Após encerrar a história ainda podemos ler um pouco mais sobre o autor e sua influência para a comunidade literária e sobre os autores e artistas que o influenciaram, também temos uma conversa sobre o tema abordado no livro e sua importância. 

Uma leitura instigante e muito interessante.

Se a Rua Beale Falasse, inspirou o filme do mesmo nome dirigido por Barry Jenkins, lançado em 2019 e que concorreu ao Oscar desse ano.

Uma super indicação tanto do livro como do filme.


19 comentários

  1. Que bela resenha Vivian. Se fiquei emocionada só lendo ela, imagina o que não sentiria lendo esse livro. Já tive essa sensação em algumas leituras passadas a anos atrás e que você citou: que não evoluímos tanto quanto pensamos, queríamos ou devíamos e isso é desolador. Histórias como essa são importantes pra chamar a atenção das pessoas para as pessoas. Gostei muito da resenha e fiquei bem curiosa sobre o desfecho dessa história e apreensiva também, sendo uma história baseada em fatos reais, temo não ter o final que eu gostaria :/

    P.S: Amei essa frase em sua resenha e não poderia concordar mais: "pois o mundo precisa de pessoas que se importam umas com as outras" :)

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    1. Boa noite, Lili.

      Foi um livro que me pegou mesmo, eu o li em pouco mais de um dia, porque ele foi me envolvendo, e com isso me fazendo refletir.
      Espero que se o ler tenha a mesma experiência que eu tive, apesar de todo ar agridoce dele, também tem uma mensagem de esperança: Não desistam das pessoas!

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  2. Tinha visto falar dessa história e é, aprendi no ano passado que a gente tem belas ideias de evolução com a sociedade mas é só sonho. O que mudou mesmo foi a luta. Mais gente lutando por coisas que não deveriam nem precisar lutar. A velha história de sempre.
    O jeito da trama ser tão atual mesmo se passando num tempo mais antigo mostra isso. Gostei do drama dele e de como faz a gente refletir nas coisas. É dessas histórias que parecem pegar a gente de jeito pelo que vai apresentando e pelo que a gente aprende. A visão que ele passa. Acho que iria adorar ler. Tem tudo pra ser daqueles livros favoritos ou ao menos daqueles fortes que a gente não esquece.

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    1. Oi Cristiane, concordo com você, a causa não mudou, somente temos perdido o medo de nos posicionar e isso tem feito que haja uma luta ainda maior. O livro nos mostra isso que mesmo sendo doloroso, devemos sempre apoiar os inocentes.

      Espero que tenha uma ótima experiência o lendo , quando tiver a oportunidade 😉

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  3. Não seria o tipo de livro que eu leria após passar os olhos na sinopse, mas pela resenha vejo que, apesar do enredo clichê, precisamos abordar ainda mais o preconceito racial dentro da literatura. Fiquei interessada. O casal foge do estereótipo de casais apaixonados, a protagonista grávida faz de tudo pelo homem que ama, mesmo sendo acusado de estupro. É um casal unido não só pelas dores em comum que passam, como pelo amor puro.

    Triste saber que foi baseado em fatos reais, mas extremamente necessário espalhar esse livro pelo mundo. Para dizer o que você disse na resenha: não evoluímos como sociedade.

    Vou procurar!

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    1. Oi Cora 😘

      Um livro agridoce e necessário infelizmente.
      Pois o tema ainda precisa ser difundido, na esperança que o racismo deixe de existir um dia.

      😘

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  4. Eu sabia da existência do filme, apesar de não ter assistido ainda, mas não sabia que tinha o livro.
    É deprimente que esse tipo de coisa acontece atualmente. Saber que isso não é só uma hitória fictícia entristece. É uma pena que seja a nossa realidade.
    Com certeza é um livro e filme que quero conferir.

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    1. Oi Nil.

      Eu ainda não assisti ao filme, esta na minha lista, quem sabe nesse feriado.
      E infelizmente retrata uma realidade muito atual, então me tocou muito

      Que tenha uma ótima experiência de leitura quando o ler.

      Beijos 😉

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  5. Vivian!
    Importante o autor ter uma escrita agradável e envolvente para poder tratar de assunto tão delicado e importante, porque falar sobre preconceito é complicado.
    Boa Páscoa!
    cheirinhos
    Rudy

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    1. Oie Rudy, que tenha tido uma linda Páscoa

      Eu adorei a escrita do autor mesmo. A história é algo do dia a dia, mas toca em tantos pontos importantes e difíceis.

      Adorei mesmo 💚

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  6. Olá! É tão assustador (e principalmente triste), saber que uma história escrita a tanto tempo reflete de maneira avassaladora nossa realidade atual. A história é realmente comovente e fiquei muito tentada em ler e descobrir qual final me aguarda. É preciso evoluir o mais rápido possível e compreender de uma vez por todas que somos todos iguais e merecemos respeito.

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    1. Oi Elizete, sim, é bem triste quando nos deparamos com a verdade, de que ainda não evoluímos.Por isso tenho achado cada vez mais importante, que autores, diretores e artistas, tenham espaço para falar sobre esses temas. Quem sabe assim, um dia vamos ler algo do tipo e pensar: Nossa como era horrível no passado!

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  7. Oiee!
    Percebo por sua resenha que esse é um daqueles livros que nos faz pensar, e eu amo livros assim, que a gente para pra analisar as situações da vida, de tudo o que vemos e sentimos.
    Não conhecia o livro, apenas tinha ouvido falar do filme, quero conferir os dois.
    Bjokas!

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    1. Oi Iêda, sem dúvidas um livro que me fez parar tudo e refletir, nosso dia a dia está tão cheio de tristeza, que as vezes fechamos os olhos para o que atinge as demais pessoas. Esse livro mostra muito a necessidade de sermos melhores uns com os outros.
      Espero que tenha uma excelente experiência de leitura o lendo.
      Beijos.

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  8. Olá Vivian!
    Sinceramente livros assim me deixam com o coração apertado de ver como as coisas não evoluem no mundo. Tanto se fala sobre esses temas e mesmo assim o problema persiste. A obra nos ajuda a vivenciar de perto a situação vivida pelos personagens, sentir sua dor, seus medos. A influência da família para suportar tudo isso também ganhou bastante destaque e é uma bela mensagem que o livro transmite. É necessário divulgarmos histórias como essa para que a sociedade sinta o impacto de suas ações e quem sabe por fim reveja seus conceitos.
    Beijos

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    1. Oi Aline, concordo totalmente, é o tipo de literatura que deve ganhar as ruas e ser muito divulgada, ela deve chegar a todas as camadas da sociedade, quem sabe assim um dia, em vez de um ciclo de racismo e violência podemos viver em ciclos de empatia e generosidade.
      Esse livro também me deixou com o coração apertado.
      Beijos.

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  9. Oi Vivian,
    Ouvi falar dessa história enquanto assistia a entrega do Oscar, mas no momento não sabia que havia sido baseada de um livro e que este tinha sido escrito na década de 1970. Essa é aquele tipo de história que não importa o tamanho do livro a leitura será densa, pesada e muito reflexiva. Se hoje temos tantos exemplos de injustiça contra o negro imagina a décadas atrás. Apesar da injustiça que ocorre com Fonny e o quanto ela precisa ser contata sinto que o livro é muito mais sobre Tish e o que ela vai passar em meio a tudo isso. A força feminina mais uma vez tem se mostrar superior para enfrentar difíceis desafios e não só por ela, mas também pela família que ela está construindo. Se a Rua Beale Falasse é um livro importante e com uma grande mensagem e, claro, que vou querer lê-lo assim que o oportunidade surgir.

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    1. Ou Gislaine, você está certíssima, apesar do tema ser doloroso, e ser algo que aconteceu com Fonny, o livro é todo pelo ponto de vista de Tish, e sua luta, ela é uma das heroínas da vida real, que queremos proteger com todas as nossas forças, um livro denso, porém belíssimo.
      Que tenha uma ótima experiência ao ler ele, assim como eu tive.
      Beijos.

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  10. Oi, Vivian
    Ainda não li nada do autor, mas quero ver se consigo mudar isso o quanto antes.
    Quanto a capa prefiro a do filme, é linda.
    Gostei do enredo pois ele proporciona uma mistura de sentimentos ao leitor, bem interessante e atemporal.
    Quero muito poder ler e assistir o filme.
    E a pergunta que não quer calar será que Fonny consegue sua liberdade?
    Beijos

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