Sempre Vivemos no Castelo - Shirley Jackson

Título: Sempre Vivemos no Castelo
Autor: Shirley Jackson
Páginas: 193
Ano: 1962 (Primeira publicação), 2017 (Publicação no Brasil)
Editora: Suma de Letras
Gênero: Mistério
Adicione: Skoob
Onde Comprar: Saraiva
Nota:                  
Sinopse: Morando na casa da família Blackwood com Constance, a irmã mais velha, e o tio Julian, Merricat só quer manter o delicado equilíbrio conquistado pelos três. Mas, desde que Constance foi acusada de um terrível crime, ninguém deixa os Blackwood em paz. Quando o primo Charles chega à cidade, tentando fazer amizade com Constance e despedaçar tudo o que Merricat conquistou, ela entende que precisa fazer o possível para proteger o que sobrou de sua família - e isso pode levar a atitudes inesperadas.

Resenha: Os castelos são figuras imponentes e magníficas que significam, além de poder e realeza, o passado. As pedras em suas paredes preservam uma realidade fora de seu tempo. Suas muralhas, fortes, fecham o mundo interior e as pessoas que lá moram ficam em sua bolha atemporal. Hoje, quem olha para um castelo logo imagina a vida em séculos tão distantes do nosso e se perguntam como é possível que essas vivências tenham permanecido intactas ao longo do tempo.

De certa forma, os castelos são mais comuns que imaginamos e Mary Katherine faz questão de manter o seu sempre em ordem e inviolável. Desde que uma parte de sua família foi assassinada e sua irmã foi acusada do crime, elas vivem fechadas em sua casa, isoladas do resto do mundo. Constance, a irmã, nunca coloca os pés fora do perímetro da residência e vive para cuidar de sua irmã e do Tio Julian. O passado cruel da família é constantemente lembrado e revivido e Tio Julian só fala sobre a última noite “deles”, obcecado em escrever os mínimos detalhes do ocorrido. Nenhum dos três seguiu em frente, os fantasmas permanecem ainda vivos dentro da casa.

Mas os três são felizes, à sua maneira. E preciso dizer que é uma maneira levemente perturbadora. Mary Katherine é uma jovem (de dezoito anos) com a mente conturbada e deturpada e tem uma obsessão quase doentia em manter a rotina da casa intacta. Ela deseja levar Constance e tio Julian pra lua e proteger seu castelo contra as invasões das pessoas de fora. Estas, que moram no vilarejo, odeiam a família Blackwood e não hesitam em demonstrar esse ódio através das piadas e comentários maldosos toda vez que Mary Katherine vai até o vilarejo. A menina, por sua vez, imagina os passeios do lado de fora como jogos de tabuleiro no qual em determinado momento todas aquelas pessoas estão mortas e ela reina sobre seus cadáveres.

A escrita da autora acompanha de forma incrível o raciocínio da jovem e é desenvolvida como se fosse realmente uma expressão exata dos seus pensamentos. Por isso, a leitura pode ficar bem confusa às vezes e até um pouco sem pé nem cabeça. Mas isso só acontece porque Mary Katherine, ou Merricat como sua irmã a chama, vive em um mundo diferente do nosso e ao entrarmos em sua cabeça somos pegos pelo choque de realidade. Esse é definitivamente um dos elementos mais interessantes da obra. Todos os personagens foram bem delineados e nas poucas páginas da história já conseguimos conhecê-los profundamente.

Além disso, a narrativa também é muito aflitiva porque é difícil compreender a vida dessas meninas e como elas não veem que a maneira como elas insistem em viver no passado as prejudicaram durante muitos anos. Só nós, que estamos do lado de fora das muralhas do castelo, conseguimos ver que ele está se deteriorando enquanto as marcas que ele deixou lá dentro já estão enraizadas demais para serem retiradas. A estrutura frágil em que elas vivem foi totalmente abalada com um simples toque da campainha, junto com a chegada de um primo que veio fazer uma visitinha.

O livro nos faz pensar em como as pessoas se acomodam em viver nas lembranças, em viver isoladas em suas bolhas e muralhas. Constroem as próprias barricadas e impedem as novas memórias de chegar. A história tem alguns toques macabros, principalmente pela narrativa em primeira pessoa mostrar a visão de Mary Katherine. Ela pensa e deseja a morte de muitos, além de usar todas as artimanhas para jogar, inconscientemente, com o inconsciente de sua irmã e as manterem presas em seu confortável castelo. Ela tem medo da mudança e tem medo que redoma de vidro sob a qual sua verdade está inserida se quebre. Porque ela tem a certeza de que vivem plenamente e não precisam de mais nada, afinal: “(...)Ah, Constance, eu disse, nós somos tão felizes.”

Vale dizer que esse livro não consegue ser esgotado com apenas uma leitura. Sinto que muita coisa eu deixei passar e ainda não compreendi verdadeiramente a essência da história. Portanto, para embarcar nesta aventura é necessário disposição e a ciência de que você precisará visitar as irmãs Blackwood mais algumas vezes até entender qual é a delas. De certo que essa obra exige intensa reflexão e sua proposta é exatamente essa, provocar no leitor sentimentos e pensamentos conflitantes que o irão instigar a organizá-los e refletí-los. Pode parecer trabalhoso e chato, mas a leitura se torna prazerosa quando você percebe que as palavras vão muito além do alcance da nossa imaginação.

11 comentários

  1. Maíra!
    Difícil viver de passado e se trancar em uma redoma, não permitindo que a atualidade e a realidade se façam presentes.
    O mundo pela visão de Mary parece bem ilusório e confuso, fico me perguntando se ela não tem algum distúrbio psicológico?
    Agora todo livro que traz reflexão sobre a vida, acredito que valaha a pena ler, pois podemos questionar nossos pontos de vista.
    Desejo um mês repleto de realizações e um final de semana de alegrias.
    “A sabedoria é um adorno na prosperidade e um refúgio na adversidade.” (Aristóteles)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE SETEMBRO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

    ResponderExcluir
  2. Oi Maíra, tinha visto a sinopse a capa desse livro e achado interessante e lendo a resenha fiquei um pouco curiosa mesmo que eu tenha que ler mais de uma vez pra poder entender a essência da história. A protagonista parece ser bem peculiar e meio macabra haha, com todos os pensamentos sobre reinar sobre os cadáveres dos vizinhos que não gostam delas. Ótima resenha, espero poder ler essa história futuramente *__*

    ResponderExcluir
  3. Oi, tudo bom?
    Gostei muito da resenha, essa é a primeira vez que vejo falar do livro, ele pelo visto é muito bom, achei interessante saber que ele se trata de pessoas que insistem viver do passado, realmente as vezes criamos bolhas nas quais não queremos sair e nem queremos que ninguém entre, espero ter a oportunidade de ler o livro.
    Beijos *-*

    ResponderExcluir
  4. Hey,

    Nunca ouvi falar do livro, mas me apaixonei pela capa e depois pela sinopse, depois da sua resenha fiquei muito intrigada pra saber mais sobre os pensamentos pra lá de macabros da personagem principal, e toda a historia dela, então pretendo ler.

    ResponderExcluir
  5. Só pelo livro ter como cenário principal um castelo, já gostei; acho bem triste essas pessoas que se prendem ao passado e tem medo de viver um futuro diferente do que o presente, a Mary, por mais que ame e queira proteger seu tio e sua irmã, além de não viver a própria vida, não deixa eles viverem a deles.
    Beijos!

    ResponderExcluir
  6. É, realmente a capa é uma fofura, mas só isso mesmo. Não pensei que esse livro traria uma historia dramática assim, pensei que fosse mais um livro de amor clichê, de romance fofinho. Engano meu, fui pega pela capa!
    Fiquei curiosa pra saber mais sobre esse amor possessivo que a protagonista sente pela sua irmã e a morte da família. Adoro livros que trazem alguma reflexão e que mexe com nossas mentes.
    Adicionei na minha listinha, beijos.

    ResponderExcluir
  7. Pelo drama e por ser diferente o livro já me ganhou! Gosto de ler (e ver filmes) que voce precise ler varias vezes e prestar atenção para entender os pensamentos e o decorrer da historia, é cativante, cada nova leitura é uma descoberta nova que voce anteriormente nao tinha percebido! Adicionei na minha lista de desejados, com certeza!

    ResponderExcluir
  8. Olá!
    Nao rinha ouvido fala desse livro porém já vi. A trama realmente é interessante, tem uma premissa que te envolve docemente na leitura, mostrando que nem todos conseguem desgrudar do passado é isso inevitável. Terá descoberta bastante impactante na trama e estou ja ansiosa para conhecer!

    ResponderExcluir
  9. Gostei muito da temática do livro, uma abordagem que nunca fica antiga. Acomodação, manter as aparências são sempre constantes na sociedade. Com certeza vou procurar esse livro para ler, nem que seja a primeira publicação.

    ResponderExcluir
  10. Oi Maíra!
    Eu amei esse livro! Também achei a narrativa muito aflitiva. Todo o momento em que li o livro senti uma tensão no ar. Gostei muito do modo como a autora construiu a trama, muitas vezes me questionei sobre os acontecimentos. Marycat é uma personagem incrível!
    Bjus

    ResponderExcluir
  11. A princípio, a sinopse é bem simples e não dá a dimensão da história. A resenha tá bem legal, mas esse entendimento do quanto a história é grandiosa só lendo mesmo. Já fiquei um pouco perturbada com essas mortes repentinas de tantos parentes e tenho lá minhas suspeitas. Merricat pareceu ser a grande protagonista, a grande desequilibrada.

    ResponderExcluir