A Criança no Tempo - Ian McEwan

26 de outubro de 2018

Título: A criança no tempo
Autor: Ian McEwan
Páginas: 288
Ano: 2018
Editora: Companhia das Letras
Gênero: Ficção
Adicione: Skoob
Onde Comprar: Amazon
Nota:  
Sinopse: Numa ida rotineira ao supermercado, Stephen Lewis, escritor bem-sucedido de livros infantis, se depara com a maior agonia de um pai: Kate, sua filha de três anos, desaparece sem deixar rastros. Numa imagem terrível que se repete ao longo dos anos seguintes, ele percebe que a garota não vai voltar. Com ternura e sensibilidade, Ian McEwan nos leva ao território sombrio de um casamento devastado pela perda de um filho. A ausência de Kate coloca a relação de Stephen e de sua esposa Julie em xeque, enquanto cada um deles enfrenta à sua maneira uma dor que só parece se intensificar com o passar do tempo. Vencedor do Whitbread Award, A criança no tempo discute temas como ausência, luto, culpa e as marcas indeléveis que um acontecimento pode deixar em uma família. Um romance surpreendente de um dos melhores escritores de sua geração.

Resenha:

“O tempo estava redimido, o tempo voltava a ter propósito por ser o meio de realizar o desejo.”
A criança no tempo é de verdade um livro desafiador e por muitas vezes angustiante. Um sentimento de perda crescente provoca sensações angustiantes no leitor. O protagonista dessa história é Stephen Lewis, um famoso autor de livros infantis que ao fazer compras no mercado com sua filha Kate, ela é raptada.

O pânico crescente de Stephen enquanto ele vasculha o mercado em busca de Kate é tão real que prendi o fôlego por esses momentos. Me bateu um desespero e uma vontade de chorar, sou mãe de dois meninos e imagino que a cena seja tão angustiante quanto... O filme que roda na cabeça, os detalhes que passaram desapercebidos, o vulto vestido de escuro que na hora não foi tão importante, mas que poderia ser a peça do quebra-cabeça.
“O homem com a comida de cachorro estava indo embora. A moça do caixa já entrara em ação, os dedos de uma das mãos movendo-se velozmente sobre o teclado enquanto a outra puxava para perto os produtos comprados por Stephen. Ao tirar o salmão do carrinho, Stephen deu uma olhada para baixo, na direção de Kate, e piscou o olho. Ela o imitou, mas desajeitadamente, enrugando o nariz e fechando os dois olhos. Ele pôs o peixe na esteira e pediu à moça um saquinho. Ela meteu a mão debaixo de uma prateleira e lhe entregou o saquinho. Ele pegou e olhou para trás. Kate havia desaparecido.”
À medida que a narrativa toma corpo, ela não tem seu foco apenas na busca cega de Stephen por sua filha, mas também no seu esforço em compreender e de aceitar a irreversibilidade de sua perda, bem como o desmoronamento crescente de sua relação com a esposa Julie.


Contada através de crescentes flashbacks e por mais cruel que possa parecer, voltar ao tempo repetidas vezes faz com que o leitor seja parte intrínseca do sofrimento de Stephen, desde a falência do seu casamento a dor diária e o desolamento do protagonista pela perda de sua filhinha.
“O crescimento de Kate tinha se transformado na própria essência do tempo. Seu crescimento espectral, o produto de uma tristeza obsessiva, era não apenas inevitável — nada era capaz de fazer parar o relógio fibroso — mas necessário. Sem a fantasia de sua continuada existência, ele estava perdido, o tempo pararia. Era o pai de uma criança invisível.”
Por mais brutal que possa parecer, somos capazes de perceber que o conceito de tempo não é mais um experiência contínua quando se trata de emoções. O sofrimento possui ligação própria com o tempo. Dizem que o tempo cura todas as feridas, mais quanto maior é a perda mais intensa é a ferida provocada. E infelizmente essas feridas podem ser reabertas e exploradas de maneiras distintas. A dor pode até se atenuar, mais as cicatrizes que foram geradas é um registro diário de todo o sofrimento passado.
“À noite, ele bebia mais. Comia num restaurante da região, sozinho. Não procurava os amigos. Nunca retornava as chamadas registradas na secretária eletrônica. Em geral não se importava com a imundície do apartamento, com as avantajadas moscas pretas em suas rondas sem pressa. Quando saía, temia rever a deprimente configuração de suas velhas posses, o modo como as poltronas vazias se acocoravam tendo a seus pés pratos sujos e jornais antigos.”

É uma história triste, mas que transmite uma crença firme no amor e esperança. Não existem prazos para se livrar da perda daquele a quem amamos, mas voltar a sorrir e ter fé não significa que os sentimentos diminuíram. Permitir-se retomar a vida e refletir sobre a existência não são antagônicos, e fazem parte da essência mais íntima de alguém. É indispensável buscar o equilíbrio entre a retomada da vida e a saudade. Leitura recomendada!

5 comentários

  1. Olá! Confesso que já fiquei com os olhos marejados aqui só de ler a resenha, imagina lendo o livro haja lencinho de papel. A história traz uma carga emocional muito grande, e sem dúvida muito difícil recomeçar sabendo que você nunca mais vai ser completo.

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  2. Oi, Nádya,

    Esses mais diversos sentimentos gerados no leitor, só mostra que o livro é capaz de criar uma forte conexão, pois é um enredo muito profundo.

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  3. Acho muito angustiante ler histórias desse tipo. Apesar de nunca ter passado por uma experiência parecida, a forma escolhida pelo autor para focalizar a trama deixa tudo intenso e extremamente palpável, assim como tu destacou. Imagino que a sensação de medo e impossibilidade de reverter a situação não acompanhe apenas o protagonista, mas também o leitor.

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  4. Nossa Nádya que livro...
    Deve ser lindo apesar de ter uma história tão triste...
    Vou add nos desejados e torcer por uma oportunidade.
    Bjs!

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  5. Olá!
    Eu fiquei curiosa pelo livro, tem uma premissa muito boa e com uma historia bem triste e comovedora..Espero ter a oportunidade de ler!

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